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                                                                                                            ENTREVISTA 

                                                                                    Uma visão sobre a escola

 

Com o inicio do ano letivo, pais e mães ficam apreensivos sobre qual a melhor escola devem escolher para seus filhos. Não é tarefa fácil tomar uma decisão que vai influenciar a vida e a personalidade da criança de várias maneiras, já que a escola tem papel fundamental na formação do indivíduo.

Pensando nisso, o Guia Daqui Perdizes I Pompéia entrevistou a psi­copedagoga Fátima Isaura Silva Santos, autora de livros didáticos como "Fazendo Meu Caminho. Percepção" e "Fazendo Meu Caminho - Motricidade", experiente na educação de crianças de zero a dez anos.

Formada pela PUC-SP, Fátima foi professora do Ensino Básico ao Médio, e hoje dirige a escola Fazendo Meu Caminho. É também assessora psico­pedagógica em instituições escolares, onde desenvolve programas de preven­ção de futuras dificuldades no apren­dizado e na socialização da criança e do adolescente.

Além disso, Fátima está preparando novas edições de livros didáticos que têm como foco a alfabetização por meio de valores humanos, como em 'Alfabetizando com as Fábulas" e o desenvolvimento de habilidades manuais, como nos novos volumes dos livros de psicomotricidade com lançamento previsto para este semestre.
 

 

- Qual o papel da brincadeira na educação infantil?

É através do brincar que se desenvolve a memória, os sentidos e as de percepções. A educação infantil passou a ter um caráter diferente nos últimos anos. Ela teria que, por princípio básico, desenvolver a socialização, hábitos e atitudes, trabalhar mais o lado emocional, mas acabou tomando o enfoque acadêmico. A criança tem que aprender a ler, a jogar xadrez, a nadar bem, tem que fazer várias coisas para as quais pode não estar pronta Muitos pais acham que escola boa é aquela onde a criança aprende a ler com cinco anos. Isso pode acontecer, tem criança que com

cinco anos aprende a ler porque está mais preparada, tem desejo de leitura Agora, há crianças que ainda querem brincar e isso tem que ser respeitado. Cada uma vai aprender a ler, escrever, a jogar xadrez, a nadar se tiver essas habilidade e na época certa. Quando a criança brinca mais, ao ser alfabetizado, não terá tantos problema como dislexia, por exemplo. Há crianças que não conseguem formar frases porque ainda não têm seqüência temporal ou uma boa linguagem Disso, quem deveria dar conta é a educação infantil: ensinar a linguagem, a lógica dos fatos, com brin­cadeiras.

 

- Como você vê o uso da informática no ensino básico?

A informática, se aplicada sem exageros, é muito boa para o apren­dizado. Tem ótimos materiais para crianças, materiais lúdicos, com música, parlendas, pinturas, formas, pos­sibilitando unir o conteúdo com a brincadeira. Porém, nenhum exagero é bom. Se a informática for usada como mais um recurso, não tem problema. O que não dá é para a criança ficar o dia inteiro no computador, porque as conseqüências são iguais às da televisão.

 

- Ao elaborar um livro didático, quais os objetivo?

 

A minha proposta de trabalho, além é trabalhar o corpo. No livro de matemática tentei trabalhar os jogos de rua, as brincadeiras populares e a criança, através do brincar, vai descobrindo as operações matemáticas envolvidas. Por exemplo, a brincadeira 'coelho sai da toca '. Pra fazer o coelho sair da toca quantos círculos elas teriam que fa­zer no chão? O que acontece quando um entra e o outro sai? Quantos coelhos sobram? Isto é representado no papel através. de desenho, os professores conversam matematicamente sobre o que aconteceu e passam para as operações. O livro tem uma proposta construtivista, a criança vai construindo o conhecimento, interligando as ações e tudo isso com o corpo, não só intelectualmente. Passa pelo emocional também Isso está um pouco esquecido nas escolas. Em todas as coleções que faço me preocupo com o lado] social e emocional Acredito que a aprendizagem primeiro passa pelo corpo e como a criança se sente tem que ser levado em conta, não é somente dar o conteúdo. Principalmente em educação infantil, que as crianças são pequenas. Tem que respeitar o lado emocional, tem que ter diálogo. .. A criança só vai aprender se ela se sentir segura, se conseguir trocar com o amigo, então o trabalho em grupo é essencial até para que ela tenha base para chegar à escola fundamental.

 

- E isso depende bastante do pro­fessor. ..

Depende. E está tão complicada a educação brasileira! Hoje em dia há uma faculdade de pedagogia em cada esquina.

O governo até que teve boa intenção, as pessoas que trabalham com educação infantil têm que ter pedagogia, é a nova lei. que o nível de ensino caiu. Vemos alunos do último ano de pedagogia escrevendo a palavra sítio com 'c' e sem acento! li verdade! Uma educadora não pode cometer um erro básico desse!

 - "Dos 7 aos 11 anos aproximadamente, a criança irá adquirir um pensamento mais socializado, isto

é, não passará mais a brincar ao lado do outro, mas a brincar com o outro. Perceberá mais a existência da necessidade de modificar sua argumentação e, assim, utilizar o pensamento lógico e reversível, tomar consciência do que é seu pensamento e o que é o do outro, melhorando a sua comunicação com o mundo" (LAPPAPORT, Clara Regina; FIORI Wagner Rocha; DA VIS, Cláudia;

Psicologia do Desenvolvimento. VoI 4, São Paulo, EPU, 1981/ 1982). Como analisa esse texto, uma citação da Teoria Piagetiana ?

Segundo Piaget, a criança tem várias fases. Quando é pequena, aprende a conhecer o mundo através dos sentidos. Dos dois aos quatro anos,. mais ou menos, começa a explorar a linguagem e se espelha no adulto, nas pessoas que a cercam, para tentar imitá-Ias: ela fala o que ela ouve, imita os gestos. Dos quatro aos seis anos começa a socialização, mas o pensamento da criança ainda é egocêntrico, ela tem um ponto de vista muito particular. Não con­segue perceber que as coisas são de um outro Jeito que não seja O delas. Piaget diz que a criança quando olha para o sol acha que ele está seguindo-a por onde ela vá. Acha que ela é o centro do universo. Se chove ou faz sol é segundo o desejo dela. É o pensamento mágico. Dos sete aos 11 anos é a fase das operações concretas do pensamento. Isso está um pouco diferente hoje porque uma criança bem mais estimulada pode entrar mais cedo nessa fase. É quando a criança começa a pensar de uma forma lógica, a respeitar o outro, começa a perceber e a valorizar a opinião de amigos, entender que as pessoas têm pontos de vista diferentes. Assim, ela aprende a se comunicar com o mundo. É isso que Piaget quer transmitir.

 

- Quais critérios os pais devem analisar antes de definir em qual escola colocarão a criança?

Eles devem pensam se a escola é legalizada, se tem aprovação do MEC, se tem condições de segurança e estrutura para receber as crianças; se é limpa, arejada, se tem ventilação. Não basta ver se o preço é menor e se é próxima de casa. Tem que pensar no que ele pretende com a escola porque, muitas vezes, coloca a criança em uma escola de nome, mas o método para o filho dele não é interessan­te. Eles deveriam chegar nas escolas e perguntar o que ela oferece, como trabalha, como o professor lida com uma criança tímida, com uma mais esperta ,hiperativa, com a que não tem limites...


 

Qual a filosofia da escola? Às vezes, os pais não concordam com essa filosofia e depois que a criança se adaptou à escola eles acham que não bate com os valores da casa. Ao mudar de escola, a maior prejudicada é a criança, porque teve todo um processo para se adaptar. E toda escola tem seu valor, escola não é uma instituição neutra. Tem que perguntar que tipo de pessoa aquela escola quer formar. Às vezes, os pais se preocupam com coisas tão banais e se esquecem que a escola está lá para formar um cidadão. Não é difícil ensinar O conteúdo, agora formação é uma coisa complicada. Se a escola não trabalhar bem o desenvolvimento das habilidades da criança e conceitos de respeito e cidadania, como é que fica? O que você está esperando da educação? Você quer que seu filho seja uma enciclopédia ambulante ou. uma pessoa que saiba lidar com dificuldades, respeitar O outro. Tudo isso tem que ser levado em conta.